Como seria ser tomado por um impulso de largar suas obrigações por um dia para ir à um lugar que não faz o menor sentido ? Nesse local nada de especial existe, mas você sente que lá era onde você deveria estar.Minutos depois, já se sentindo bobo, decide ir embora.Hesita por um minuto, e de repente nota que não esta mais sozinho, outra pessoa, aparentemente procurando por algo, esta ali.Diferente de você, ela parece não se sentir boba.
No caminho de volta para casa, aquela pessoa está esperando pela condução para ir embora também, novamente um impulso te faz oferecer uma carona, e ,como se o destino não fosse irônico o suficiente, ela esta indo para o mesmo lugar que você.Aquele dia, que prometia ser apenas mais um dia torna-se algo inacreditável, e logo você se apaixona por aquela estranha pessoa.E então se sente idiota, afinal como alguém se apaixonaria por outra pessoa que acabou de conhecer ? Mas para seus sentimentos não importa o tempo, apenas o modo como seu coração bate diferente.
Como uma fantasia, você vê nos olhos da outra pessoa que ela também está apaixonada por você .E há outro momento de hesitação.O que está acontecendo ? Minutos depois você está em casa. Antes de entrar o carteiro o chama para entregar as correspondências em suas mãos.Você e a pessoa estranha se sentam no sofá.Para sua surpresa há uma fita no envelope, a curiosidade é mais forte que a felicidade de estarem juntos.Quando a fita começa a tocar você reconhece sua voz, mas não tem a menor lembrança de tê-la gravado.
Passam se alguns segundos para que a explicação chegue, você está participando de um procedimento não-cirúrgico para apagar de suas memórias justamente a pessoa que está do seu lado, um pesado silêncio misturado com assombro, dor e confusão fica entre os dois.A fita continua enquanto os dois não conseguem se olhar, você por não lembrar de ter dito aquilo e a outra pessoa por escutar coisas que ela reconhece em si e que apenas alguém que a conhecesse muito intimamente saberia.
O que fazer uma vez provado que aquilo é verdade? Seguir em frente até o momento que o fez querer esquecer o outro para sempre ou interromper naquele exato momento, aquilo que vocês dois passaram, antes que tudo de errado ?
É exatamente aí que acaba o filme "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", de Michel Gondry - 2004.Muitos assistiram o filme,mas no final nem todos conseguiram contemplar toda a beleza e a tristeza que o filme tem, desde os momentos que mostram o amor entre Joel e Clementine até o desgate da relação deles.Tudo isso para que no fim eles se conhecessem de novo.
Estou dando um tempo na teoria que comecei no post anterior, pois preciso de tempo para organizar a segunda parte.E hoje assisti novamente esse filme maravilhoso, que talvez ocupe a posição número um dos melhores filmes que assisti.Não importa quantas vezes eu o assista, sempre é como a primeira vez, como se eu tivesse apagado a história das minhas lembranças e me apaixonasse infinitas vezes pelo mesmo filme.Ou talvez porque no fundo imagino que há um final feliz depois dos créditos.Joel e Clementine jogam fora as fitas, e decidem construir algo novo, apenas mantendo em mente que eles nunca gostariam de chegar ao ponto de desejarem se esquecer, e isso se torna o único ponto de referência para o seu primeiro passado.
Esse filme também mostra numa prática fantasiosa o tema do Eterno Retorno, idéia trabalhada por Nietzsche.De maneira romântica e narrativa vemos um casal que se conhece, se apaixona, se odeia e se separa, e logo em seguida se conhecem novamente, repetindo infinitamente as mesmas escolhas, sem notarem que a repetem.Freud sustentado nessa idéia criou o termo Compulsão à Repetição, que na Psicanálise (de forma resumida) significa as repetições que fazemos inconscientemente durante a vida, seja escolhendo os mesmos tipos de parceiros, os mesmos tipos de amigos, os mesmo erros nos mesmos lugares, e que raramente nos damos conta de que estamos repetindo.E mesmo quando isso acontece, quase nunca mudamos aquilo.
Estamos sempre encontrando nossas Clementines e Joels pelo mundo, cometendo os mesmos erros.Nem mesmo Freud conseguiu chegar num consenso sobre o porque fazemos isso, durante a evolução de sua teoria ele pensou em várias coisas, mas nem no fim de sua vida chegou a uma conclusão.A primeira impressão é de que repetimos para tentar chegar numa resolução melhor, erramos sempre igual na tentativa de reparar o "erro inicial", aquele que desencadeou nossa eterna repetição.No entanto, Freud notou que mesmo quando fazemos diferente ou conseguimos resolver um problema de forma satisfatória, quase sempre continuamos agindo da mesma maneira.
Será que podemos sair desse círculo vicioso eterno ? Talvez não.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
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